Fundação Cultural Cassiano Ricardo

Ao publicar a cartilha conhecendo Cassiano Ricardo na versão online, a Fundação Cultural de São José dos Campos presta uma grande homenagem a seu patrono. Ser FUNDAÇÃO CULTURAL CASSIANO RICARDO, é ter compromisso com o desenvolvimento de nossa cidade, é respeitá-la e amá-la, como ele sempre fez.

E este é o objetivo: fazer com que o joseense conheça a pessoa Cassiano Ricardo. Aquele menino que cresceu na zona rural de São José e pescou nos rios Paraíba e Buquira. Que aos nove anos de idade escreveu seu primeiro jornal, quando estudava no Colégio Olympio Catão. E ao acompanhar seu pai no Mercado Municipal, aproveitava para comer taiada e conversar com os “caipiras”.

Com sua sensibilidade, guardou na memória pequenos detalhes dessa infância nesta cidade, que ainda possuía “pequenas ruas tortas” e um vizinho que “acordava tranqüilo, tocando flauta”.

Embora tenha se mudado para São Paulo, depois para o Rio de Janeiro e até para Pais, as lembranças da então pequena São José dos Campos permaneceram no coração e na poesia de Cassiano Ricardo.

Em reconhecimento e retribuição, temos hoje, neste pólo tecnológico que faz foguetes, carros, aviões e satélites, estampado com orgulho em suas avenidas, escolas, instituições, o nome do poeta CASSIANO RICARDO, na busca do belo, do sonho e da humanidade!
 

Poética

Que é a Poesia?
   

uma ilha
cercada
de palavras
pro todos
os lados.

 

Que é o Poeta?
   
um homem
que trabalha
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.

 

Cassiano Ricardo
Livro: Jeremias sem-chorar

 

Viajam as palavras

Passageiros, formo como que um diagrama
entre o céu tremido e o jornal que a trepidação do trem sacode
em minhas mãos.

A paisagem me vem oferecer seus buquês roxos e cor de ouro
mas foge, arrependida.

Vistos, de longe, de passagem,
todos os rostos são amigos, são iguais.

Só que depois, em minha memória, que estará rolando ainda esta paisagem
impressa em mim, à minha saudade
como um quadro à parede.

O possível desastre
faz cantar, como uma carretilha ao meu ouvido,
o pássaro do adeus.

O trem de ferro desloca o sentido das coisas.

Viajam as palavras.

Cassiano Ricardo
Em "O sangue das horas"

 

Poema que inspirou a Fundação Cultural Cassiano Ricardo a dar o título ao Projeto sobre leitura e literatura que teve início com a Semana Cassiano Ricardo 2005.
 
Ilustre poeta

 Depois de tudo

Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.

 

Nasce o poeta

Cassiano Ricardo Leite nasceu em São José dos Campos no dia 26 de julho de 1895, um dia antes de a cidade completar 128 anos. O pai era Francisco Leite Machado, dono da Fazenda Santa Teresa,  no bairro da Vargem Grande e a mãe Minervina Ricardo Leite, que além de boa cozinheira escrevia versos.

Na fazenda se plantava muita coisa:  café, frutas, legumes, verduras, cana-de-açúcar. Além disso se produzia leite.

O menino Cassiano cresceu no meio da natureza, pescando no rio Paraíba e no rio Buquira. Nas festas juninas comandava as crianças da fazenda e distribuía tarefas: uma pendurava as bandeirinhas, outra ajudava a montar a fogueira, outra ajudava na instalação dos fogos.

A família Leite tinha casa na cidade, na Praça Cônego Lima e as brincadeiras aconteciam também ali: mãe-da-rua na praça, pique-esconde na Travessa João Dias, pega-pega na Rua 15 de Novembro. Era o começo do século vinte.

Quando fez 70 anos de idade, Cassiano Ricardo, já famoso, escreveu seu livro de memórias, “Viagem no tempo e no espaço”. No livro ele conta detalhes de sua infância e da adolescência. E lembra com saudades: “na fazenda aprendi a amar a terra com cheiro de chuva, muito cedo;  e o meu gosto era ver as gotas de orvalho, de manhã, presas nas teias de aranha, nas cercas e árvores. Era molhar os pés na relva primaveril”.

 

O menino jornalista

Cassiano gostava muito de escrever. Aos nove anos de idade, em 1904, estudando  no Colégio Olympio Catão ele fez um jornalzinho chamado “O Ideal”, todo escrito com caneta bico-de-pena, que era o que se usava naquela época. O garoto distribuía o jornal de mão em mão.

A vontade de escrever começou muito cedo.

Dona Minervina, a mãe, escrevia poesia; o tio Manuel Ricardo era poeta e incentivava o sobrinho; o primo Zezinho Monteiro era jornalista e dono do jornal “A Cidade” . Crescendo nesse ambiente Cassiano Ricardo desenvolveu sua habilidade nas letras.

Carta escrita pelo poetaQuando tinha de cerca de 16 anos, em 1911, começou a escrever um jornal, “4 Paus” impresso na oficina de “A Tribuna”, um jornal  que, na época, era do pai dele, Francisco Leite. Logo o “4 Paus” causou confusão porque Cassiano Ricardo criticava algumas pessoas da cidade.

Um dia, um certo doutor Isaac cercou o rapaz na Praça Cônego Lima. O jornal fez uma crítica ao doutor que não gostou nada do comentário e foi tirar satisfações. Cassiano só não levou uma surra porque os amigos dos dois não deixaram.

Durante toda sua vida o poeta foi jornalista polêmico e teve muitas passagens por fatos importantes da história do Brasil.

 

As Maravilhas

Imagine só: um menino de dez anos de idade, inteligente, vivendo entre a roça e a cidade, aprendendo sobre a natureza, ao vivo, brincando, convivendo com a família.

Ao mesmo tempo conhecendo todas as novidades do começo do século vinte: eletricidade, automóvel, o cinema, gramofones, vacina contra a raiva, avião.

Os mais velhos tomavam um susto! Os mais novos ficavam encantados.

Seria mais ou menos o que acontece hoje. Com as crianças convivendo com computador, celular,  televisão de tela plana, ônibus espacial, DNA, satélites de comunicação, Internet.

Naquele início do século vinte o garoto Cassiano Ricardo viveu as mudanças todas. Já adulto, o poeta colocou na sua poesia as muitas maravilhas que o acompanharam a vida toda.
 

Três léguas

Chico Leite, como era conhecido o pai de Cassiano Ricardo vendia os produtos da Fazenda Santa Teresa no Mercado Municipal. Da roça à cidade eram três léguas, mais ou menos dezoito quilômetros em estrada de terra. A viagem era feita em carro de boi, com uma pele estendida por cima para proteger do sol forte.

O centro de São José dos Campos era bem diferente do que é hoje. O Mercadão e a igreja da Matriz já existiam e algumas casas daquela época ainda estão de pé.

Ao lado do Mercado Municipal existia o Largo d’Aparecida, onde todos levavam os animais para beber água. Era ali que Chico Leite parava seu carro de boi, descarregava as mercadorias para vender aos comerciantes do Mercado.

Enquanto isso, o menino Cassiano aproveitava para comprar “taiada” e rapadura e conversar “com os caipiras”  de quem ele gostava muito.

 

Música de flauta

Num poema famoso chamado “A flauta que me roubaram” Cassiano Ricardo se recorda da cidade calma onde passou parte da infância. O poema começa: “Era em São José dos Campos...”, cidade de “pequenas ruas tortas”.

Numa parte do texto o poeta lembra do vizinho que “acordava tranqüilo, tocando flauta.”

Esse instrumento musical está sempre presente nos poemas de Cassiano; a flauta lembra a poesia.

Em outro poema ele fala no “vento tocando flauta numa flor”.

E no seu último livro chamado “Os sobreviventes”, Cassiano Ricardo fala de um sabiá que canta na laranjeira. O poeta pergunta ao pássaro: “és tu mesmo/ sabiá vespertino/ ou alguém que toca/ flauta/ em teu lugar/ para enganar/ o menino.”

É o poeta lembrando, numa bela mensagem, a sua infância, os pássaros, os pés de fruta e o seu vizinho flautista.

 

Mudando de cidade

Depois de terminar o antigo curso primário (hoje é o curso de 1a a 4a série) Cassiano e a família foram morar em Jacareí, onde ele estudou no Ginásio Nogueira da Gama. Nessa escola ele aprendeu o Esperanto que é um idioma inventado pelo médico polonês Ludwig Zamenhoff no século dezenove. Quando a gente presta atenção no jeito de o Cassiano escrever poesia nota alguma coisa do Esperanto, por exemplo, quando ele brinca com as palavras.

De Jacareí foram todos morar em São Paulo, onde o poeta começou o curso de Direito. Ali estudou durante três anos. Então aconteceram duas coisas: ele foi para o Rio de Janeiro terminar os estudos e publicou seu primeiro livro de poesia, chamado “Dentro da noite”.

Terminou o curso e voltou para São Paulo como advogado. Dois anos depois publicou o segundo livro, “A frauta de Pã” que foi bastante elogiado pelos escritores famosos da época: Olavo Bilac, Martins Fontes, João do Rio e Francisca Júlia, a mesma que, hoje, dá o nome para a casa de repouso em São José.

Aos 25 anos de idade, o agora advogado foi morar com a família em Vacaria, Rio Grande do Sul, a convite de parentes. Durante quatro anos Cassiano Ricardo trabalhou em sua nova profissão mas também escreveu o jornal “Pátria”, feito por ele. Começa, então, sua carreira política. E o poeta quase morreu baleado!

 

O verdadeiro amigo

O advogado Cassiano foi contratado para defender um homem acusado de assassinato. Uma das testemunhas de acusação era Libório Mafra. Cassiano Ricardo descobriu que Libório havia sido pago pela família do morto para mentir no julgamento. Na hora da audiência ele fez a denúncia ao juiz e o Libório não pôde testemunhar.

Mais tarde, Cassiano estava em sua casa. A mãe, Minervina fritava alguns bolinhos na cozinha. De repente, um tijolo foi tirado da parede e, no buraco,  apareceu o cano de um revólver apontando para Cassiano. Era o Libório Mafra querendo matar o advogado! Dona Minervina deu um grito!

Nesse instante, um cachorro da casa vizinha atacou Libório que levou umas mordidas na perna. Foi tudo muito rápido.

O agressor fugiu e o poeta se salvou. Quando escreveu seu livro de memórias Cassiano Ricardo lembrou-se do cachorro: “aquele foi meu amigo, de verdade”.

 

Na academia

Em 1923, com 28 anos de idade, Cassiano Ricardo voltou para São Paulo. Um ano antes – 1922 – aconteceu um movimento que mudou a cultura no Brasil: a Semana de Arte Moderna. Todos os participantes queriam escrever, pintar, fazer música – fazer arte - de um jeito diferente, mais... moderno. Cassiano não concordava muito com eles e fez uma outra proposta chamada “movimento verde-amarelo”. Aí a briga começou. De um lado, os modernistas, do outro os “verde-amarelos”. Os debates foram até publicados em jornais e não se falava em outra coisa.

Mas, o tempo foi passando, as coisas sempre em movimento. Cassiano Ricardo casou-se com a poeta Jacy Gomide e foi convidado para entrar na Academia Paulista de Letras.

Durante as revoluções de 1930 e 1932, das quais participou, o poeta escreveu pouco. Em 1937 entrou para a Academia Brasileira de Letras, onde tomou posse no dia 28 de dezembro. O menino da roça e jornalista adolescente chegou ao ponto máximo da carreira de poeta.

 

Brincando com as palavras

Cassiano Ricardo leu e escreveu muito. Os livros que ele leu e estudou estão, hoje, no Arquivo Público do Municipal de São José dos Campos, doados pela família.

Desde 1915 até 1971 ele escreveu 23 livros de poesia. De 1928 a 1970 escreveu outros 18 livros em prosa, tratando de vários assuntos: história do Brasil, problemas brasileiros, memória,  estudos sobre a obra de outros escritores e estudos sobre poesia.

Ele gostava de brincar com as palavras. Dizia que o poeta deve trabalhar o poema, estudar bem o som das palavras. De tanto fazer experiências ele criou  o “linossigno” que é o nome de cada uma das linhas do poema.

A vida de Cassiano Ricardo é cheia de acontecimentos ligados à arte, ao jornalismo, à política e, principalmente, à poesia.

Quando escrevia, pensava quase sempre no ser humano sofredor, nas pessoas sem nome. Chamava a atenção para a guerra e inventava criaturas mágicas nos seus poemas.

Os livros de Cassiano Ricardo foram traduzidos em vários países: Itália, Holanda, Inglaterra, Hungria, Espanha, França. Sua obra é estudada em algumas faculdades nos Estados Unidos.

Aos 70 anos de idade o poeta lembra-se do menino que foi, um dia. Esse menino sempre volta nos poemas que ele escreveu: “tudo quanto tenho escrito se liga ao garoto quem em mim, às vezes, já não sei por onde anda”.

O poeta morreu no dia 15 de janeiro de 1974, depois de sofrer uma queda em casa, aos 78 anos de idade. Seu corpo está enterrado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.
 

 

POESIA:

Dentro da noite (1915);
A frauta de Pã (1917);
Jardim das Hespérides (1920);
A mentirosa de olhos verdes (1924);
Vamos caçar papagaios (1926);
Borrões de verde e amarelo (1927);
Martim Cererê (1928);
Canções da minha ternura (1930);
Deixa estar, jacaré (1931);
O sangue das horas (1943);
Um dia depois do outro (1947);
Poemas murais (1950);
A face perdida (1950);
O elefante que fugiu do circo (1950);
25 sonetos (1954);
O arranha-céu de vidro (1956) - Prêmio Paula Brito, 1956;
João Torto e a fábula (1956);
Poesias completas (1957);
Montanha russa (1960) - Prêmio Carmem Dolores Barbosa, 1960;
A difícil manhã (1960) - Prêmio Jaboti, 1960;
Jeremias sem-chorar (1964) - Prêmio Jorge Lima, 1965;
Poemas escolhidos (1965);
O Sobreviventes (1971).
 

PROSA:

O Brasil no original (1936)
O negro da bandeira (1938), in Revista do Arquivo Municipal de São Paulo;
Elogio de Paulo Setúbal - Discurso de Posse na Academia Brasileira de Letras (1938);
Pedro Luís visto pelos modernos (1939), in Revista da ABL;
Pedro Luís, precursor de Castro Alves (1939), in Revista da ABL;
A Academia e a poesia moderna (1939);
Marcha para Oeste (1940);
A Academia e a Língua Portuguesa (1941), in Revista da ABL;
A poesia na técnica do romance (1953);
O tratado de Petrópolis (1954);
Gonçalves Dias e o Indianismo (1956), in A Literatura no Brasil;
O homem cordial (e outros pequenos estudos brasileiros) (1959);
Pequeno ensaio de bandeirologia (1959);
22 e a poesia de hoje (1962);
Algumas reflexões sobre a poética de vanguarda (1964);
O Indianismo de Gonçalves Dias (1964);
Poesia Praxis e 22 (1966);
Viagem no tempo e espaço (memórias) (1970);
 

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