Fundação Cultural Cassiano Ricardo

Livro "Tuco: O Catador de Palavras" / Foto: André Delgado/FCCR

A entrevistada do Dia do Livro Infantil é a Mirian Cris. Depois de toda a sua carreira como poeta, a escritora conta um pouco sobre a sua primeira experiência com literatura infantil na criação do livro “Tuco: O Catador de Palavras”.

MIRIAN, VOCÊ É POETISA E TAMBÉM ESCREVE HISTÓRIAS PARA CRIANÇAS. NESSE UNIVERSO DA LITERATURA, QUAL O GÊNERO QUE VOCÊ MAIS SE DIVERTE ESCREVENDO?

Na verdade, eu sou estreante na área de literatura infantil e a questão da diversão varia muito, as vezes o tema nem é tão divertido, é mais intenso e emocional do que divertido. A leitura escrita funciona muito como um catalisador do seu sentimento naquele momento. Muitas vezes você pode escrever um poema sobre um fato engraçado, uma tirada, uma brincadeira com alguém e, ao mesmo tempo, você pode escrever um poema extremamente denso sobre a realidade de algum fato que te chocou muito.

QUAL FOI A SUA PRINCIPAL INSPIRAÇÃO PARA ESCREVER A HISTÓRIA DE UMA CRIANÇA QUE VIVE A SITUAÇÃO DO SEU PERSONAGEM: O TUCO?

O Tuco surgiu de uma maneira muito interessante, eu nunca havia pensado em escrever um livro infantil, nunca tinha me despertado pela literatura infantil. Eu fiz um curso sobre contos de fadas e achei superinteressante, aprendemos a origem dos contos e estudamos sobre vários personagens, mas eu notei que os seres e personagens em geral são encantados e tem encantamentos impossíveis: fadas, seres que voam e seres superpoderosos. Então, fiquei com vontade de escrever um conto de fadas que falasse sobre uma história possível e como ando pesquisando e conversando com um amigo que faz trabalhos com papel artesanal, eu pensei em escrever uma história sobre um menino catador de papelão. Primeiro eu quis falar sobre uma história que pudesse ser real, depois escolhi a realidade desse menino, que é um catador de papelão, e aí foi se desenvolvendo a história. Como eu também gosto bastante dessa área educativa, de propiciar formas diferentes para crianças e adultos se interessarem pela leitura, então a história do Tuco chegou em mim assim: ele é um menino, catador de papelão, e com os poucos recursos que essas pessoas possuem, ele tem o sonho de aprender a ler e escrever. A história se desenvolve nesse enredo dele querer aprender e buscar condições, então, no decorrer do livro, os personagens vão entrando na sua história e vão tecendo de forma a deixar a dúvida: será que ele vai conseguir aprender a escrever? Você vai ter que ler para saber.

DE TUDO QUE O TUCO TEM PARA ENSINAR TANTO AOS ADULTOS QUANTO ÀS CRIANÇAS, QUAL O PRINCIPAL ENSINAMENTO QUE VOCÊ GOSTA DE CARREGAR NA SUA MEMÓRIA?

Gosto muito de carregar a mensagem de amizade que o Tuco tem com outro personagem do livro que é o Sandoval, porque essa amizade deles e a forma deles criarem possibilidades, para quem ler o livro, vai ver que, com o recurso mínimo, eles vão conseguir uma forma de chegar no que eles querem, realizar o sonho do menino e realizar o sonho do Sandoval. Então é muito importante essa questão de você criar formas de não esperar uma coisa pré-estabelecida, é um mundo lindo e maravilhoso para você conseguir realizar seus objetivos. E esse menino consegue, dentro da sua precariedade, realizar seu sonho. Então eu acho muito importante isso, a mensagem de que a gente pode conseguir e também a mensagem para os adultos olharem os meninos que estão por aí. Uma coisa, muitas vezes você faz alguma coisa num livro e tem vários resultados que você já espera, e com o Tuco estão tendo resultados não previstos que eu estou adorando! Por exemplo, um deles é o cabelo do menino, muitas crianças que tem, o cabelo igual ao do Tuco se sentem representadas, então elas amam conhecer um personagem que vai dar certo, faz coisas boas e que tem a pele mulata, que é queimado pelo sol, que tem o cabelo todo enroladinho, é filho de pessoas pobres, então é importante a literatura retratar a realidade das crianças, porque elas se sentem representados, isso é uma coisa que tem marcado muito o trabalho que eu tenho feito quando mostro o Tuco pra várias crianças.

VOCÊ TEM ALGUM ESCRITOR QUE GOSTE DE LER SEMPRE E USE COMO INSPIRAÇÃO NAS PALAVRAS QUE VOCÊ ESCREVE?

Meu escritor de cabeceira é o Drummond (Carlos Drummond de Andrade), desde a adolescência eu leio os poemas do Drummond. Foi o primeiro a me despertar para literatura, porque, quando eu era adolescente, não tinha tanta paciência para ler livros grossos e a poesia do Drummond me despertou de tal forma que eu lia um poema do Drummond de meia página e já parecia que eu tinha lido um livro inteiro. Depois, lá pelos 20 anos, me interessei também pelo Guimarães Rosa, que conta muito a história do Nordeste do nosso país. Drummond e Guimarães Rosa.

DEIXE UM RECADO PARA OS ESCRITORES QUE TÊM VONTADE DE PUBLICAR E DIVULGAR SEUS LIVROS!

No primeiro momento, o importante para qualquer pessoa que deseja ser um escritor é gostar de ler. A leitura vai te dar a matéria prima para sua escrita. Muitas vezes você tem ideias ótimas, mas você não tem a quantidade de palavras suficientes para você se expressar de maneira correta e bonita sobre aquele seu sentimento e depois é escrever. A questão de publicação, não é fácil, mas se você quer escrever você consegue. O Tuco foi feito com uma ação solidária, muitos amigos compraram livros antecipados e, por meio dessa venda antecipada, eu pude bancar esse livro. Então, se você quer publicar, você vai conseguir. Outra coisa que é muito importante é você ser crítico e dar a cara para bater, pedir para pessoas bem formadas e que entendam de literatura para ler o que você escreveu. Não adianta você escrever, achar que está muito lindinho, mas se você não se abrir para as críticas, você não faz um bom trabalho.

Confira o vídeo da entrevista completa clicando aqui.

Programação FCCR

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