Fundação Cultural Cassiano Ricardo

Arte como território de escuta

Por Beth Néspoli

 

Um dos problemas enfrentados por artistas, em diferentes épocas, diz respeito ao modo como a crítica a determinados aspectos da cultura pode se verticalizar em um espaço de tempo relativamente curto, mas permanecer circunscrita a alguns círculos sociais. Quando determinados enquadramentos ou padrões de comportamento já intoleráveis para uns permanecem tão profundamente sedimentados na subjetividade de outros, a ponto de serem considerados naturais, uma barreira entre produção e recepção pode se abrir no campo das artes.

José Sanchis Sinisterra, um dramaturgo catalão, certa vez comentou que não é raro haver artistas do século XXI falando para uma plateia do século XIX. Na arte teatral, que só acontece em relação, ignorar tal distância pode provocar recusa e ruptura, com plateias reduzidas a grupos de afinidade. Por outro lado, conceder a ela, pode rebaixar o pensamento. 

A consciência desse problema está no cerne da linguagem do espetáculo Rosa choque, do coletivo mineiro Os Conectores, apresentado na 31ª edição do Festivale, que aborda a violência contra as mulheres. Na potencialidade para alcançar a empatia de públicos heterogêneos – no que diz respeito aos graus de consciência crítica para com a temática em foco – reside a força poética desse trabalho de múltiplas linguagens, da matéria ficcional à documental, da performance à situação dramatizada.

Com direção de Cida Falabella, texto de Assis Benevenuto e Marcos Coletta, e atuação de Cris Moreira e Guilherme Théo, o espetáculo, privilegia o jogo e não as emoções e o psicologismo. A opção é pela chave lúdica e sensível-racional. Em vez de cenas, talvez fosse mais adequado falar em momentos, tal a variedade de procedimentos adotados, todos tendo como suporte a investigação crítica sobre o campo da cultura, onde se formam as subjetividades que impulsionam os comportamentos. Assim, evita-se direcionar o olhar do espectador para a acusação dos indivíduos ou, mais grave, estimular uma retrógada guerra dos sexos.

O primeiro movimento é um ato de intervenção sobre a fila de entrada, antes mesmo do início da sessão, quando são separados homens e mulheres, instruídos a ocupar lugares de lados opostos da plateia. Na apresentação acompanhada, alguns poucos se rebelaram contra o simplismo da divisão binária de gênero associada ao sexo biológico e, discretamente, não cumpriram a ordem. Mas a imensa maioria – a autora deste texto incluída – acatou sem hesitação e sem nada pensar a respeito. Porém, depois da interação proposta por cenas que desvelam comportamentos sexistas e violentos, em sua maioria não percebidos com tal, claramente estimulados pela mesma divisão binária que segrega e oprime, o espectador é convidado a refletir sobre o seu lugar na plateia – e evidentemente no mundo – e, se quiser, a alterá-lo. A efetividade crítica da proposta torna-se visível ali, na movimentação do público. 

Muito da potencialidade crítica do espetáculo se apoia nos jogos de inversão masculino/feminino, seja por meio de elementos de figurino, seja na efetiva troca de papeis, como ocorre numa cena de denúncia de estupro numa delegacia. O machismo embutido na cultura é demonstrado também no contraponto entre expectativas e advertências familiares dirigidas a homens e mulheres do útero à velhice ou no contraste entre definições de dicionário para termos vinculados ao feminino e ao masculino.

Criado em 2009, o coletivo Os Conectores, é composto por artistas de diversas áreas – performance, música, audiovisual – que trabalham predominantemente com intervenção urbana. Certamente tal experiência contribui para a propriedade com que usam o vídeo mapping (mapeamento de vídeo, técnica que permite desenhar com luz e projetar imagens sobre superfícies de diferentes dimensões e formatos, a partir de distâncias também muito distintas) na criação de formas luminosas expressivas e estreitamente articuladas aos demais elementos cênicos.

Trajeto e vertente artística de origem ajudam ainda a entender a maestria com que a dramaturgia é composta por sobreposição ou contraponto de diversas matérias textuais em escrita cênica de grande fluidez. Há desde depoimentos pessoais dos integrantes – pertinentes, corajosos e, ao menos um, de gravidade que por si só daria significação ao espetáculo – até o discurso de despedida da presidenta Dilma; da voz da escritora Simone de Beauvoir à da ativista paquistanesa Malala Yousafzai.  Há também, a cada noite, a leitura de uma notícia “do dia” colhida na imprensa local informando sobre um ato de violência contra a mulher. Na apresentação do Festivale/2016, a leitura do recorte de um jornal local narrava o assassinato de uma mulher pelo marido que a jogara para fora do carro em velocidade depois de tê-la espancado.

Rosa choque atua para encurtar a distância aludida no início deste texto. Apesar da contundência do tema, em vez de riscar o chão, esse coletivo de artistas instaura um território lúdico que propicia atenção e escuta, e assim cria arte de evidente efetividade crítica.

 

- Escrito no contexto do 31º Festivale - Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba, de 2 a 11 de setembro de 2016

 

 

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