Fundação Cultural Cassiano Ricardo

Singelezas da cultura

Por Dinah de Oliveira

 

Mais um espaço de cultura entra no circuito do 31º Festivale, a Casa do Idoso do Norte: um dispositivo municipal de referência para a terceira idade, com projetos gratuitos que transitam entre as áreas de medicina preventiva, de assistência social, educação e cultura. O auditório estava cheio numa tarde quente para receber Marzia Gatto com o trabalho Cordel de Filó, que mescla linguagem teatral com a Literatura de Cordel.

A artista se debruça sobre a obra da cordelista de Juazeiro do Norte, Maria do Rosário Lustosa, realizando um trabalho que ela diferencia da contação de histórias, pois a responsabilidade da cena está nas mãos de um personagem. É importante notar que a tradição do Cordel nasce por influência europeia, mais precisamente a partir do Renascimento quando as narrativas ganham impressões popularizadas. A apropriação no Brasil adquiriu diferentes formas e nomeações. A mais conhecida tem a ver com o hábito português de colocar os impressos pendurados em cordéis ou barbantes para serem vendidos, daí a origem do nome.

Ao contrário da Embolada, que se canta em dupla de improvisos rimados, o Cordel é um poema ritmado em estrofes de dez, oito, ou seis versos, estrutura que não compete com a possibilidade narrativa da linguagem teatral.

A Filó de Marzia Gatto é uma cearense que esbanja seu sotaque. Portando um pandeiro e uma pequena mala customizada, Filó dramatiza uma série narrativas. Muito orgulhosa de versar sobre o Cordel de uma mulher, ela incentiva os direitos feministas, dá a ver a importância da alfabetização e do estudo. A atriz utiliza acessórios de vestuário para compor os diferentes personagens das histórias.

Mesmo carecendo de um aprimoramento de tempo ritmo ou de um mais apurado manejo dos objetos e de sua presença, o trabalho mostra cuidado com as escolhas das narrativas e empenho em sua condução.

No adiantado contexto de mundialização da cultura, Cordel de Filó navega na contramão. Parte da inspiração para se aventurar no território da cultura nordestina vem da origem de seus pais, ambos cearenses conforme revelou no bate-papo após o espetáculo. Sua mãe costumava ler histórias de Cordel para os vizinhos sob a luz do lampião.

Outra imagem que permeia a memória da atriz tem a ver com as figuras contratadas para atrair fregueses diante das lojas ou bancas de Cordel do nordeste brasileiro. Essa história, contava sua avó. A apresentação no 31º Festivale foi realizada para um público eclético, nos fazendo pensar na importância desses pequenos, mas imaginativos atos de cultura, de conversa entre modos diversos de falar, de vestir e de significar.

- Escrito no contexto do 31º Festivale - Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba, de 2 a 11 de setembro de 2016

 

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