Fundação Cultural Cassiano Ricardo

Estímulo à experiência da arte

Por Beth Néspoli

 

No inconsciente de todo ser humano, de qualquer idade, há camadas profundas nas quais habitam medos e desejos que não se configuram no campo do pensamento consciente e da linguagem. Os sonhos andam repletos dessas formas difusas, que não entendemos, mas nos afetam. Intrinsecamente onírico, o teatro de sombras tem um grande potencial para ser expressão artística similar à linguagem dos sonhos e tocar zonas sombrias da psique.

Mas nem sempre artistas dessa vertente da arte se dão conta desse poder. Muitas vezes as imagens criadas por meio dessa técnica apenas ilustram narrativas verbais. Passa longe de tal equívoco a montagem da Cia. Lumiato, de Brasília (DF), que apresentou o espetáculo infantojuvenil Iara – o encontro das águas, na programação do 31º Festivale, em São José dos Campos. Os sombristas Thiago Bresani e Soledad Garcia se conheceram na Universidade de San Martin, na Argentina, em 2008, na qual ambos fizeram sua formação em teatro de objetos e títeres, o equivalente ao bacharelado, ele brasileiro, ela nativa. Começaram a trabalhar juntos ainda estudantes e se profissionalizaram em 2013, já vivendo no Brasil.

Se a função das fábulas e narrativas míticas é processar medos arquetípicos, não é diferente com as lendas dos povos indígenas. Na conversa após o espetáculo, Thiago e Soledad contaram ter descoberto que antes dos portugueses aportarem por essas terras, o que havia era Ipupiara, uma figura masculina, um monstro das águas que devorava os pescadores. A existência da Iara como uma espécie de sereia grega é fruto da interferência dos europeus sobre a cultura nativa. A eles, interessava trabalhar com essa simbologia, com os aspectos sombrios que habitam águas profundas em nós, mas como o alvo era o público infantojuvenil preferiram trabalhar com a versão mais conhecida da Iara, sem abandonar do todo o original.

Diante da imensa gama de possibilidades oferecidas da vertente de linguagem do teatro de sombras, convidaram o experiente artista Alexandre Fávero para a direção, e ele também assina dramaturgia e cenografia.

A encenação demonstra que o grupo não diluiu a carga simbólica da lenda original. Não por acaso, o espetáculo tem início com o pesadelo de um jovem índio. Na tenda armada no centro do palco, que remete ao formato das ocas indígenas e serve de anteparo das imagens criadas por trás do pano, é possível identificar a silhueta de um rosto cor de terra pintado com traços em vermelho. Logo esse desenho se deforma e como que se funde ao emaranhado verde da floresta – o que faz pensar sobre o modo como os povos indígenas não separam gente e natureza. O menino surge novamente, para outra vez se fundir ora com animais, ora com as aguas, em um movimento constante de alternância entre figuração e abstração.

A atmosfera lúgubre dos pesadelos, em especial nos primeiros minutos, mas que mesmo suavizada perpassa todo o espetáculo, aliada à intensa beleza das imagens, indica proposta de fruição onírica. O grupo aposta no envolvimento do espectador por meio da percepção sugestiva das formas, das cores e das sonoridades. Tais elementos são predominantes na linguagem, ainda que uma trama narrativa linear também esteja contemplada, e de forma bastante clara, mesmo se contada com poucas palavras.  

De acordo com a lenda, já na versão multicultural, Iara é guerreira e exímia caçadora, o que provoca a inveja de seus irmãos, todos homens. Por isso eles planejam assassiná-la. Mais habilidosa com a lança e o arco-e-flecha, ela mata todos eles, em legítima defesa. É possível perceber aí os ecos do episódio bíblico de José e seus irmãos, mas são mesmo apenas reverberações, porque diferentemente com o que ocorre com o filho de Jacó, Iara não é perdoada pelo pai. Como punição pela perda de seus filhos homens, ela é morta pelo pai, que a joga no encontro das águas dos rios. Quando o corpo de Iara vem à tona, a Lua, solidária, a transforma naquele ser estranho, espécie de sereia, que carrega os homens para o fundo das águas.

No modo como o grupo trabalha com formas, cores e sonoridades – há uma trilha original assinada pelo músico Mateus Ferrari e ainda uma ambientação sonora que remete aos ruídos da floresta profunda, criada por Marcelo Dal Cal – reside uma possibilidade de formação da percepção sensível que pode ser preciosa para o público-alvo deste trabalho.

Importante ressaltar que o já aludido trânsito entre figurativo e abstração não se dá como alternância entre figura e fundo, ou seja, quando os traços que delineiam uma silhueta vão se desmanchando, esta não se apaga no sentido do esvaziamento. Muda de forma. Não mais espelha um animal ou objeto real, não é mais mimética, mas não perde expressividade. Ao contrário disso, ao se tornarem sugestivas, as imagens ampliam o potencial efeito de tocar os sentidos e estimular a imaginação.

Porém, como observa o pedagogo norte-americano John Dewey em seu livro A arte como experiência, no teatro há um trabalho de elaboração a ser feito pelos artistas, mas também há um trabalho devido ao espectador. De acordo com ele, quem é preguiçoso ou está por demais embotado pela ausência de estímulos à sensibilidade no dia a dia e não consegue fazer a sua parte, não vive a experiência da arte. Nada vê, nada ouve.

Na apresentação de Iara, o encontro das águas acompanhada no Festivale, a observação da relação entre palco e plateia permite arriscar que tal embotamento já tangencia as plateias infantis que tendem a se comportar como se estivessem em auditório de programa televisivo. Ao menor esboço de ritmo na trilha musical desandam a bater palmas compassadas, mesmo se isso claramente não está proposto pela cena. Cada imagem produz gritos agudos e contínuos como os dirigidos aos cantores-celebridades. São reações estéreis, não pelos gritos em si, mas porque desconectadas do objeto artístico com o qual interagiam, o teatro de sombras em questão.  

O escurecimento total da sala deveria contribuir para intensificar a atmosfera onírica. Porém era de se esperar a agitação do público, composto de alunos de diferentes escolas públicas, que entraram em um ônibus rumo a um divertido programa extraclasse. Mais que louvável, é imprescindível conectar arte e educação, porém seria fundamental realizar um trabalho prévio de sensibilização do estado de recepção. A atividade corporal que tomou conta das crianças quando as luzes se apagaram não contribuiu para a interação com a obra.

Tal observação tem como intuito reforçar a importância desse encontro, até mesmo na ausência de preparação, mesmo se de um jeito meio torto. Muito provavelmente algumas daquelas imagens impressas nas retinas ficarão fixadas em algum ponto. E vão atuar sobre a sensibilidade e subjetividade daquelas crianças e pré-adolescentes. Ideal seria que houvesse muitos desses encontros, seguidas de conversas que pudessem desdobrar a simplicidade das indagações iniciadas com porquês. O mundo de hoje é repleto de estímulos visuais. A arte pode ser grande aliada na formação do olhar crítico sobra a saturação de imagens que diariamente trabalha pelo embotamento dos sentidos.

 

- Escrito no contexto do 31º Festivale - Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba, de 2 a 11 de setembro de 2016

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