Fundação Cultural Cassiano Ricardo

 

Ao longo do século 19, a Irmandade de São Benedito exerceu suas atividades na Capela Nossa Senhora do Rosário, no Largo do Rosário, atual Praça Cônego Lima. Essa irmandade dividia o local, a organização das festividades e as despesas com outra irmandade, a de Nossa Senhora do Rosário, mas eram entidades autônomas, com as atividades independentes.

Em 1865, foi enviado à mesa da irmandade um pedido de construção de uma igreja pelos direitos de São Benedito; em 1867, Antonio de Castro Mendonça doou à irmandade um terreno para tal fim; as obras foram iniciadas em 1869.

Construída primeiramente em taipa, a igreja começou a ser utilizada entre 1880 e 1881, com a primeira reunião da Irmandade.

A Capela de Nossa Senhora de Rosário foi demolida no início do século 20. A partir de então, as duas irmandades passaram a conviver na então chamada Capela Nova de São Benedito.

De 1887 até meados do século 20, a nova capela passou por uma série de obras, tanto de ampliação, finalização e de acabamento como para a construção das sacristias esquerda e direita e a substituição do arco cruzeiro de madeira, todos feitos em tijolo e antes de 1898.

Com a sua atribuição como matriz provisória em alguns anos da década de 1930, passou por outras mudanças: reforma no telhado, reconstrução das torres e paredes externas, colocação de ladrilhos hidráulicos.

A igreja era sede da banda de música e orquestra de São Benedito, que fora criada pela irmandades e se apresentava em festas tanto religiosas quanto laicas.

Em 1980, o prédio foi tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico). Nessa mesma década, após o desmoronamento de alguns de seus elementos, firmou-se um convênio com a Prefeitura de São José dos Campos para obras de reformas. Em 1984, após a pintura da fachada, foi lançada um selo comemorativo da data de aniversário da cidade com o desenho da Igreja de São Benedito.

O edifício foi preservado por Lei Municipal nº 3143/86, de 9 de junho de 1986, como Elemento de Preservação 1 (EP-1). A partir de 1993, a Fundação Cultural Cassiano Ricardo passou a ocupar, em comodato, o espaço da igreja com o Museu Municipal e, na lateral esquerda da nave principal, o Arquivo Público do Município. Foi utilizada também para atividades culturais, como apresentações musicais e peças de caráter folclórico. A partir de 1999, o Museu e Arquivo Público se transferiram para a sede da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, e na Igreja de S. Benedito iniciou-se novo processo de reforma e restauração.

 

Irmandade

A maior parte das cidades do Vale do Paraíba e mesmo da região Sudeste, tiveram irmandades de São Benedito como a de São José dos Campos, embora denominadas de outra forma, como “juizado”, por exemplo. Geralmente coligadas com a Irmandade de N. S. do Rosário, construíram por toda a região igrejas e capelas em nome de seus dois santos de devoção. A característica comum a todas elas é a origem social de seus membros. Eram basicamente escravos e homens livres pobres. Esta origem social marcou fortemente estas entidades religiosas, diferenciando-as de outras.

A irmandade sobrevivia a partir de um esquema de “caixinhas” (donativos recolhidos). Membros da irmandade eram escolhidos para recolhê-las na cidade ou na zona rural. A partir destas “caixinhas”, a irmandade produzia suas festas, construíam suas capelas e organizavam sua vida religiosa.

As festividades eram organizadas pelo “rei” e “rainha” festeiros, eleitos a cada ano. As festas organizadas eram a da Páscoa, o Natal e, a principal delas, a Festa de São Benedito. Tal como o rei festeiro e rainha festeira, havia outros cargos cuja função era exercida tanto na organização das festas quanto no momento da execução delas, como o de alferes da bandeira e o de capitão do mastro.

A festa de São Benedito significava certa inversão dos papéis sociais estabelecidos, pois atribuía novo valor aos grupos sociais mais pobres, representados nos membros da irmandade. No transcorrer de uma festa, o rei e a rainha, anônimos integrantes da comunidade, se tornavam o centro das atenções. Os outros membros da irmandade que exerciam suas funções na festa e recebiam também homenagens por exercê-las.

A Irmandade de São Benedito, com suas cavalhadas, moçambiques, capelas e igrejas a São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, tem sido uma marcante representante da religiosidade da sociedade brasileira e, em particular, da cultura popular paulista. Neste sentido, a Igreja de S. Benedito é a expressão material desta cultura e desta resistência cultural, feita com muito esforço e dificuldade.

 

Nota: Atribui-se o termo “igreja” como convenção, termo usual, em decorrência do tamanho do edifício. No entanto, na administração eclesiástica, a São Benedito permanece como “capela” durante toda a sua existência, uma vez que não possui um padre permanente indicado pela diocese, nem é sede de paróquia.

 

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