Fundação Cultural Cassiano Ricardo

 

O passado epidêmico de Eugênio de Mello

Visitando cidades ou vivendo no cotidiano da vida do município onde mora, é possível se perceber resquícios, ruínas de uma outra cidade, um outro tempo: ornamentos num prédio em ruínas, fachadas de casas, diferenças de calçamento, ou ampliações do mesmo, para adequação às novas necessidades. Memórias de um tempo com menos carros, com menos pessoas, com menos barulho, com ar mais limpo. Uma vida melhor?

Durante várias décadas, foram muitos os memorialistas e historiadores a exaltarem o passado, como se este fosse um paraíso perdido, melhor organizado e mais feliz. Como se a história representasse um indivíduo que mantém na lembrança as brincadeiras, as alegrias, as molecagens e deixa de lado, no escuro de suas memórias, as dores, conflitos e tristezas, coroando tudo com a frase: “Eu era feliz e não sabia!”

A função da história é desvelar o passado. Isso significa, também, tirar o véu idílico que esconde e escamoteia confrontos sociais, mortes, incômodos, pânicos, preconceitos, etc. E embaixo de um destes véus está a Capela Santa Cruz.

Capelinha do início do século, localizada no distrito de Eugênio de Mello, possui poucos detalhes e pequenas proporções. No entanto, traz em si, duas características de nossa história, obscurecidas pelo tempo: as epidemias e a religiosidade popular. Assim, para que se proponha a preservação deste edifício religioso, é necessário compreender estes dois elementos que estão solidificados em suas paredes.

 

As doenças epidêmicas no Brasil [1]

Muito pouco estudadas por pesquisadores neste país, as epidemias acompanham nossa história, modificando o cotidiano social e trazendo novas formas de controle e coesão social.

Os primeiros séculos do descobrimento foram marcados pela interrelação entre grupos humanos de diferentes etnias, como as comunidades indígenas, as tribos africanas e os colonizadores europeus. Esta interação, que, com seus conflitos, marcou profundamente a história da América Latina e especificamente do Brasil e trouxe novas características culturais, produzindo o que podemos chamar de culturas brasileiras, carregou consigo, ao mesmo tempo, uma gama de novas e mortais doenças que assolaram as tribos autóctones ameríndias, desestabilizando suas estruturas sociais e, junto às armas e maus tratos, tornando viável a colonização. [2]

Por outro lado, o constante contato com estas pestilências levou à imunização da comunidade, gerando uma espécie de “unificação microbiana do mundo.” [3]

“O encontro de três grupos humanos permitiu uma estranha espécie de troca, onde todos passaram a vivenciar uma experiência epidemiológica comum, compondo um dos momentos cruciais da história colonial brasileira. O contato intenso entre índios, brancos e negros tendeu, no decorrer dos séculos, a propiciar uma certa estabilidade epidemiológica, representada sobretudo pelo declínio das mortes entre os autóctones.” [4]

Os processos epidêmicos acompanharam o país à medida que se ia aprofundando a colonização. O Vale do Paraíba, local de grande produção agrícola e caminho de interligação do litoral com a região de Minas Gerais, não fugiu à regra. Ao contrário, doenças como lepra, bócio e varíola se revezavam e se acumulavam na vida dos moradores da região do Vale. De fato, onde havia contato entre pessoas de diferentes localidades, havia epidemias:

“O crescimento quantitativo da população paulista refletiu-se na organização do cotidiano regional. A rotina e a participação coletiva nas solenidades realizadas nos espaços urbanos, assim como as atividades agrícolas desempenhadas em conjunto aproximavam os homens, favorecendo os contatos infecciosos deflagradores de vagas epidêmicas, as quais chegavam a colocar em perigo a continuidade do projeto colonizador na terra bandeirante.”[5]

Por outro lado, as medidas governamentais se direcionavam de forma a produzir novas formas de controle e modernização dos comportamentos, ao mesmo tempo que buscavam o controle e a dissolução das epidemias.

No entanto, para que este processo de imunização e controle social se efetivasse, séculos se passaram, à custa de embates de visões de mundo, antagonismos de interesses, preconceito e exclusão social e vidas humanas.

São José dos Campos, como parte integrante do Vale do Paraíba, sofreu a maior parte dos surtos epidêmicos da região, muitos deles persistindo até o início do século XX. Aliás, neste mesmo século, da segunda década até a metade deste, sofreu um dos últimos grandes surtos epidêmicos do país, que chegou, diferentemente dos outras epidemias, a trazer dividendos para a cidade: a tuberculose.

No entanto, para nosso trabalho é necessário nos restringirmos a um surto em particular, a varíola, num local específico, Eugênio de Mello, para mostrar como este foi fator gerador de um Bem Edificado Cultural para o Distrito: a Capela Santa Cruz.

 

Varíola: o Dissecador das Civilizações

Uma das epidemias mais devastadoras do período colonial, essa doença infecciosa, também conhecida como “mal da bexigas”, chegou ao Brasil praticamente junto com o processo colonizador, persistindo “através de epidemias cíclicas até praticamente o início do século XX” [6].

Com o tempo, a doença foi-se polarizando em alguns pontos, formando centros disseminadores da epidemia:

“O certo porém é que São Paulo, Santos, Taubaté, Guaratinguetá e uns poucos outros núcleos urbanos paulistas tornaram-se os principais centros difusores da varíola para todas as partes do sul e do centro-oeste da colônia. A movimentação das tropas que partiam do Campo de Piratininga para se defrontar com as forças espanholas, em defesa dos limites territoriais da América Portuguesa, resultou na disseminação da enfermidade por uma vasta área, causando severa sangria de gente não só entre grandes tribos indígenas, mas também em várias vilas e povoados arduamente estabelecidos pelos colonizadores ibéricos” [7].

As medidas iniciais de prevenção e controle, como o isolamento (o indivíduo portador da doença deve ser exilado do resto da comunidade, em áreas fora do perímetro urbano, e se cuidar – alimentação e remédios – com seus próprios recursos), o recurso a ervas perfumadas ou a presença de bovinos nas praças públicas, métodos antigos de combate à doença, só demonstravam a falta de técnicas médicas eficazes.

Outras medidas, como a facilitação de contágio entre os negros (na época acreditava-se que os escravos de origem africana eram os responsáveis pela “bexiga”) recentemente chegados da África e a criação de cordões sanitários no litoral norte paulista, se mostraram pouco efetivos e, muitas vezes, totalmente ineficazes.

As medidas governamentais de combate da doença revelam a desigualdade social:

“Na cidade de São Paulo, os enfermos pobres e os escravos urbanos deveriam ser prontamente retirados de suas casas e removidos para uma chácara localizada no atual bairro do Pacaembu, onde seriam tratados por conta própria ou através de socorros prestados por alguns negros anteriormente imunizados. Os bexiguentos com posses também deveriam ser transferidos para fora da urbe, mas para sítios que melhor lhes aprouvessem. Contanto que ficassem afastados dos povoados, estradas e caminhos públicos. Com esta medida, percebe-se que a posição social dos paulistas era a principal ordenadora dos homens enfermos no espaço, ditando também as possibilidades de tratamento, recuperação ou morte.” [8]

A varíola demonstra também o descompasso da colônia em relação às pesquisas europeias. Enquanto a variolização (método que introduz o pus varioloso em sãos para imunização contra a moléstia) já ocorria desde 1727 na colônia inglesa da América do Norte, no Brasil só daria seus primeiros passos entre 1789 e 1800.

 

Varíola no Vale do Paraíba

As campanhas de imunização contra a varíola no Vale do Paraíba seguiram-se no século XVIII, no intuito de normatizar os comportamentos sociais segundo os desejos da administração da Metrópole Portuguesa. De fato, há muito que havia o desejo de combater o pretenso desregramento moral do povo valeparaibano, pois esta região mostrava-se “arredia” às leis coloniais, como mostra a Guerra dos Emboabas, a “Revolta do Sal”, o uso da língua tupi e uniões não sacramentadas pela Igreja. Assim, juntamente com as campanhas de imunização, criaram medidas “com o intuito de expor a toda a gente os então denominados ‘deveres civilizados’” [9]:

“O Estado chamou a si a árdua tarefa de combater aquilo que fosse considerado incompatível com os padrões culturais europeus. A ingestão de ‘cousas nojentas’, isto é, de certos alimentos indígenas tais como carne de macaco e de pássaros, tanajuras e larvas encontradas no interior de palmitos passaram a ser desaconselhadas como elementos prejudiciais à saúde e à moral. O incesto também tornou-se objeto de punição judicial, tendo-se como exemplo a situação vivenciada em 1804 por Diogo da Silva Prado. Morador em São Luiz do Paraitinga, este personagem foi acusado de viver em público, escandaloso e incestuoso concubinato’ fato que lhe fez ir para a cadeia, por período não determinado. As festas e jogos – práticas comuns entre os ‘vadios’ – passaram a ser regulamentados, sendo proibidos durante as horas que normalmente deveriam ser empregadas na faina diária.” [10]

Este processo variou, com surtos cíclicos, até o final da segunda década do séc. XIX, com a introdução da vacina janseniana, mais efetiva que a variolização, que, através da instituição vacínica, conseguiu efetivamente imunizar a população valeparaibana.

 

Varíola em Eugênio de Mello

Eugênio de Mello se formou a partir de fazendas existentes na região denominada de Capão Grosso, por volta de 1870, recebendo o nome de Nossa Senhora dos Cafezais, por ser uma exportadora de café. Recebe a designação atual ainda no final do século XIX, nome do construtor da estação e diretor da Estrada de Ferro D. Pedro II de 1889 à 1891, Engenheiro Eugênio Adriano de Cunha e Mello. A povoação vivia da exportação de café e, após a colonização japonesa, de hortifrutigranjeiros.

A epidemia de varíola ocorre no primeiro quartel do século XX, sendo ainda um resquício dos processos epidemiológicos ocorridos no Vale do Paraíba. Há poucos dados para que se possa explicar este surto. A hipótese mais provável seja talvez o contato constante com pessoas de várias localidades, devido ao comércio interno e de exportação. Soma-se a isto a presença nesta localidade de imigrantes europeus ainda não imunizados. De qualquer forma, a doença permaneceu na região por várias décadas, trazendo riscos à população e mudança no seu cotidiano:

“Aí, começou a morrer muita gente, tinha pessoal que queria enterrar no quintal, sabe. Mas aí num deixaram, porque era muito difícil transportar o defunto até São José. Porque o pessoal eles levavam, mas não era assim [como estava na ilustração de cartilha mostrada por Madalena na entrevista], era a rede que eles colocavam, no meio da rede, amarravam um pau, e um segurava na frente e outro segurava atrás. Aí resolveram fazer um cemitério aqui. No começo eles achavam... já tavam sabendo, porque essa epidemia foi geral, num foi só aqui. Uma epidemia muito grande. Morreu muita gente. Na cidade, eles levavam na carroça, família inteira pra enterrá no cemitério. Aquelas pessoas mais humildes, eles faziam vala e colocavam. Porque era muita gente, diz que chegava a saí com carroça cheia de gente. Foi horrível, foi uma epidemia mesmo grande.” [11]

Devido ao grande número de doentes, tornou-se mais difícil o transporte dos mortos para o cemitério de São José dos Campos, único existente no município. Em função disso, abriu-se um cemitério no distrito, para atender as novas demandas trazidas pela onda epidêmica.

Nesta época era costume na região o velório ser realizado nas casas dos parentes do falecido, deslocando-se após para a Igreja ou diretamente para o cemitério. No entanto, devido ao risco de contágio, “foi construída uma pequena e simples capela, à Rua José Leite da Silva, para evitar o contágio, daquele que morreu em consequência da doença, com as demais pessoas” [12].

A Capela Santa Cruz foi erigida na primeira década do século XX, numa chácara doada para esse fim por sua proprietária, conhecida como Benedita Frade. Era de pequenas proporções, construída de pau-a-pique e sapê. Esta primeira capelinha deu lugar a outra, construída com tijolos.

No entanto, muitos moradores ainda mantiveram a tradição de velar seus mortos nas casas, para preocupação das autoridades. Somente os moradores de casas pequenas, de vilas ou da Beira do Paraíba, utilizavam a Capelinha como local de velório. Este processo durou até o ano de 1999, quando foi inaugurado o velório no distrito.

Quando findou a epidemia, iniciou-se a Festa de Santa Cruz.

 

Festa de Santa Cruz

Temos duas origens para o início das festas de Santa Cruz. Uma delas é a festa de Exaltação de Santa Cruz, realizada em Roma (dia 14 de setembro) e na Gália (3 de maio – chamada Invenção de Santa Cruz), por ocasião da descoberta da Santa Cruz (fato este que se deu, segundo a lenda, no dia 3 de setembro do ano de 320) por Santa Helena, mãe do Imperador Constantino. Outra interpretação seria que a origem da festa estaria na recuperação e reconstituição da Santa Cruz por Heráclito, que conduziu o Santo Lenho pelo Calvário, após tê-lo reconquistado das mãos dos persas, fato esse que se deu no dia 3 de maio. A Festa de Santa Cruz corresponde à que em Roma se chamava Invenção de Santa Cruz.

No Brasil, a devoção e a festa de Santa Cruz foram trazidos pelos colonizadores portugueses. Em Eugênio de Mello, foi introduzida logo após a dissolução da epidemia no distrito, como agradecimento à graças recebidas. Consistia em uma novena, reza do terço em nove dias, onde cada membro era encarregado da limpeza e enfeite da capela. No último dia, era realizada a festa, com leilões, gincanas, barracas de alimentação e a dança de Santa Cruz:

“Olha, o que vinha na época, que vinha na Festa de Santa Cruz, hoje não tem mais, e vinha na festa de Santo Antônio também era um grupo que vinha de Martins Guimarães, eles... era uma dança, eles tinham umas toras ocas, como um couro de cabrito, sempre meu pai matava cabrito e já dava prá eles o couro. Eles batiam assim igual índio, em volta da fogueira e dançavam. Então ficavam aqueles caras batendo com aquelas toras e dançavam ali em volta da fogueira.” [13]

A dança de Santa Cruz teve sua origem realmente nas danças indígenas, segundo os pesquisadores, provavelmente adequadas para fins catequéticos. Essa dança acabou quando os integrantes do grupo deixaram a cidade.

A Festa de Santa Cruz permanece ainda hoje, embora tenham-se modificado muitas de suas características.

Outra festa introduzida recentemente na capela é a Festa do Divino.

 

Festa do Divino

A Festa do Divino é considerada uma das mais importantes festas religiosas no país. Disseminada pelos portugueses, conservou a estrutura fundamental, com elementos de sagrado e profano. Festa de comemoração do Pentecostes (a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, para a disseminação da palavra de Cristo pelas mais diversas etnias), ao mesmo tempo tendo a função de curar doenças, epidemias e, até mesmo, peste do gado.

Esta festa iniciou-se nos últimos anos do século XX, com a visita de moradores do local à São Luiz do Paraitinga para participar da festa do Império, outro nome dado à festividade. Lá a festa era realizada em casas escolhidas, com um dos cômodos todo enfeitado de vermelho para receber o divino. Em Eugênio de Mello optou-se por realizá-la na própria capela.

Atualmente, a Capela da Santa Cruz, além das festividades, é utilizada pelos vicentinos, para suas reuniões.

 

Notas

 

[1] Texto baseado no livro “Vale do Paraíba: saúde e sociedade (1750 – 1822)”, de Claúdio Bertolli Filho, São José dos Campos, UNIVAP, 1995.

[2] FILHO, Claúdio Bertolli. VALE DO PARAÍBA: SAÚDE E SOCIEDADE (1750-1822). UNIVAP – Universidade do Vale do Paraíba, São José dos Campos, 1995, pág. 14-15.

[3] Termo usado pelo historiador Le Roy Ladurie, idem, ibidem, pág. 14.

[4] Idem, Ibidem, pág. 15.

[5] Idem, ibidem, pág. 41

[6] Idem, Ibidem, pág. 46.

[7] Idem, Ibidem, pág. 49.

[8] Idem, Ibidem, pág. 52-53.

[9] Idem, Ibidem, pág. 57

[10] Idem, Ibidem, pág. 57-58.

[11] Entrevista realizada com Madalena Gil, em outubro de 2001, pág. 1.

[12] Plano Diretor para Eugênio de Mello, Prefeitura Municipal de São José dos Campos, 1985, pág. 11.

[13] Entrevista de Madalena Gil realizada em outubro de 2001.

 

Bibliografia Utilizada

 

ESCALANTE, Eduardo A. A Festa de Santa Cruz da Aldeia de Carapicuíba no Estado de São Paulo. Instituto Nacional do Folclore. Secretaria do Estado da Cultura, 1981.

FILHO, Cláudio Bertolli Filho. Vale do Paraíba: Saúde e Sociedade (1750-1822). UNIVAP – Universidade do Vale do Paraíba, São José dos Campos, 1995.

GIFFONI, Maria Amalia Corrêa. Manifestações Coreográficas na Religiosidade Brasileira. Revista Brasileira de Folclore nº 31, Campanha de Defesa do Folclore Brasileira, 1972.

LIMA e SILVA, Isaura Aparecida de. São Bento do Sapucaí – Tradição e Cultura. Editora Paraíso Gráfica, s.d.

LIRA, Mariza. Migalhas Folklóricas. Gráfica Laemmert, LTDA. Rio de Janeiro, 1951.

PEREIRA, Nereu do Vale. Cultura Açoriana. Caderno nº4, Imprensa Oficial do Estado de Santa Catarina, Santa Catarina, s.d.

PEREIRA, Niomar de Souza e JARDIM, Mara Públio de Souza Veiga. Uma Festa Religiosa Brasileira – Festa do Divino em Goiás e Pirenopólis. Conselho Estadual de Artes e  Ciências Humanas. São Paulo, 1978.

 

 


 

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